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segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Homesick




Às vezes a gente cresce demais e não cabe em casa, dentro das roupas ou dentro do corpo. Talvez porque tenha juntado objetos desnecessários demais. Ou comido demais. Ou pensado demais. Ou ficado tanto tempo parado que tudo atrofiou. Sem saber se é cãibra, dor ou desespero, você pensa que precisa fazer alguma coisa. Não adianta pensar nos motivos ou se arrepender do que aconteceu. Faz tempo demais. Você não se lembra de como era sua letra cursiva, dos nomes das ruas ou dos apelidos de quem chegou a ser seu melhor amigo no mundo inteiro. Você só sabe que está lá, enorme, desajeitado e quase não consegue mais se mexer. No meio de mais uma noite insone, várias vozes egoístas gritam que você faz sempre tudo errado. E já que não dá para criar nada de bom ali, você decide continuar crescendo, mas para isso precisa fugir. Dentro de uma caixa mofada, guarda tudo aquilo que sabe que não vai mais precisar e deixa para trás. Bilhetes agora incompreensíveis, roupas que você nunca usou e mídias obsoletas gravadas e regravadas. Você amputa alguns membros do seu corpo que gangrenaram há anos sem que você tenha dado falta. E então você sai o mais rápido que pode. Quer voar, mas ainda não aprendeu a correr. Enquanto foge, você se ilude várias vezes pensando que agora, sim, entendeu tudo. Mas a realidade e as pessoas que moram nela parecem absurdas demais e você decide deixá-las falando sozinhas. Tudo ainda parece desproporcional. No meio do caminho, você não pertence mais a lugar algum. Só queria estar muito longe, em vários lugares ao mesmo tempo. Mas perto de si. Dentro de casa. Uma casa limpa, sem objetos inúteis, sem pessoas ou lembranças inúteis. Com livros cheios de lições importantes para aprender e onde os únicos papéis que valem ser guardados são os que cabem histórias novas. Histórias que precisam ser contadas.



terça-feira, 10 de setembro de 2013

30




Foto: Iva Santana


Nada mudou. As águas não se dividiram, os ombros não pesaram, nenhum clichê correu atrás de mim. Não que eu esperasse ou quisesse. A verdade é que eu continuo a mesma e me sinto bem por ser a mesma. O que tento todos os dias é apenas ir em direção a quem eu quero ser, me aceitar, me entender, me amplificar. É tão mais fácil querer ser outra coisa. Às vezes parece mesmo que a vida tem a intenção de nos transformar em algo mais óbvio, mais “normal”. Tantas vezes eu achei que seria melhor escolher esses atalhos e deixei a maldita ilusão do mundo real me confundir. E o mundo real, na verdade, não passa de ilusão da minha cabeça. Olhando bem de perto, ninguém espera nada de ninguém, e o que eu consigo ver são só obstáculos. E quero continuar me esforçando para não tropeçar em obrigações, ignorância, vaidade, deuses, dinheiro, culpa, rancor, orgulho, padrões, inércia, preconceito, egoísmo e tudo o que causa dores desnecessárias. Eu só quero continuar em busca de sorrisos solitários e de um amor incontrolável por tudo o que me aproxima de mim. 
A estrada me espera e eu mal posso esperar.




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sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Amoras poluídas

Vez ou outra eu me sinto fraca. O tamanho do sorriso que acompanha o bom dia da colega de trabalho é angustiante. É impossível suportar a pressa do motoqueiro que acelera no farol amarelo. Se você ao menos olhar em minha direção eu posso começar a chorar e desandar a falar sem sentido sobre meu medo de tudo dar errado. Não aguento as amoras caindo sem parar no chão imundo do canteiro central. Não sei lidar com o clima quente da manhã que se transforma no vento gelado do fim da tarde. Minha falta de paciência com o tempo me faz chegar atrasada onde eu sou obrigada a estar. Eu tenho que estar onde não quero estar. Mas devo esperar o tempo me levar calmamente até onde eu preciso estar. O tempo tem seu próprio tempo.

Parem de cair, amoras.




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Top Ipod: When You Wake Up Feeling Old - Wilco




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segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O que você faz?





Hoje estou cansada de propósitos e objetivos. Não quero saber para onde vou.  Ando muito rápido porque não quero chegar a lugar algum. Desisti de dar uma surra nas partes horríveis do meu passado porque descobri que elas não me transformaram em algo feio e tóxico. Em vez de continuar fantasiando meu pessimismo de otimismo, comecei a transformá-lo em vontade. Concluí que nunca estarei pronta para nada e tomei atitudes inseguras que, ainda que inseguras, são, sobretudo, atitudes. Quero fazer qualquer coisa, quero fazer o que eu faço e quero fazer isso do melhor jeito que eu conseguir. Vou tentar ser incrível e interessante, mas se no fim eu conseguir apenas ser eu mesma, voltarei para casa satisfeita. Continuarei pouco a pouco afastando da minha vida todos aqueles motivos que criam rugas de preocupação no meio da cara das pessoas. Quero respirar fundo para tomar fôlego e sair correndo e nunca suspirar forte como quem desistiu. Perdi a paciência com lirismo que não tem pressa. Não quero chegar porque não existe. A espera acabou. As dez mil horas já começaram.

“When the road bends you cannot walk straight.”











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quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Expectativas


Uma vez um amigo muito querido me disse que a melhor maneira de aceitar as pessoas, ou até os fatos da vida, é criar um sistema de nível de expectativas. Funciona mais ou menos assim: você conhece uma pessoa e começa a observar suas falas e atitudes e começa a supor o que pode esperar dela, traçando uma linha vertical imaginária em sua frente e marcando com um “x” o ponto em que acha que suas expectativas devem estar. De acordo com o que vai acontecendo ao longo do convívio, você sobe ou desce o seu “x” e assim nunca espera de uma pessoa mais do que ela pode lhe oferecer.  

Por um tempo isso foi, para mim, apenas uma daquelas ideias que você escuta, entende, acha incrível, mas não consegue assimilar muito bem e colocar em prática. Depois que isso realmente fez sentido e que comecei a aplicar esse gráfico de expectativas em minha vida, vi que aos poucos foi ficando mais fácil fazer as pazes com as pessoas ou com a memória que tenho delas. Percebi que a maioria das minhas decepções vinha ou de eu não ter ao menos tentado observar direito a pessoa ou de ter ignorado o nível de expectativas que eu deveria ter. 

O fracasso é previsível quando se espera algo que está além do que podem nos oferecer. Culpar as pessoas porque elas não fizeram algo que nem deveria ser esperado delas é, no mínimo, ignorância. Há infinitamente mais ignorância que maldade nas atitudes das pessoas, seja nas que batem, seja nas que apanham. E não há melhor remédio contra a ignorância que pensar, mas pensar muito e a todo o tempo, em si e nos outros.









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Top Ipod: Two Halves - My Morning Jacket




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