segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Restos

Eu preciso me livrar desses restos. Enfiá-los num enorme saco plástico escuro. Esses restos precisam se livrar de mim. E talvez eles me coloquem dentro desse saco plástico malcheiroso. Eu preciso sentir. Eu preciso chorar. Ou talvez sentir seja para os fracos. O pranto não sabe mais se materializar em líquido. Restos se acumulam e se empilham e se sufocam e se espalham. Entram nos meus pesadelos recorrentes. Restos de um passado que ainda é. Restos de um futuro que nunca será. Restos de um presente que não sabe acontecer. Restos que não merecem ser restos. Restos que não merecem voltar para onde vieram. Restos que não podem mais ficar aqui. E restos que eu não quero expulsar. Restos que ficam olhando fixamente para mim. Restos que me fazem desviar o olhar para algo que eu não consigo identificar ao certo. Restos mortais do que não foi. Restos que se mexem como zumbis. Restos de mim. Restos de almas que não acharam o caminho para habitar corpos. Corpos que nunca se pertenceram. Um corpo que fabrica palavras demais. Palavras que talvez não nasceram pra fazer sentido.
Os restos são minha única companhia na Terra da Solidão. Mas eu prefiro ficar sozinha.
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Top Ipod: Copo Vazio - Chico Buarque

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Toda mulher é a amante lésbica de si mesma*

Ainda meio entorpecida pelo sono, virei de lado. Abri os olhos muito devagar e sem vontade. Estava escuro, mas não tão escuro a ponto de esconder uma silhueta. E a silhueta estava lá, imóvel, recebendo aquela luz meio azul, fraca e mal proporcionada.Ela estava sentada à beira da cama, com as costas completamente nuas, os cabelos presos e desalinhados, intencionalmente revelando aquela nudez, com uma postura segura de bailarina. Todas as vértebras pareciam estar em seu devido lugar. Não soube ao certo se a nudez existia também abaixo da linha da cintura. Minhas atenções não estavam voltadas para mais nada que aquele inverso do frontal. Inverso, mas revelador. Revelava muito mais que qualquer expressão facial, porque eu percebia apenas o que queria ver. Daqueles cabelos tão familiares que normalmente nunca são presos. Aquele pescoço meio desconhecido que se oferecia tão acessível e sem pudores. Os ombros retos e tensos, contrastando com os braços inexplicavelmente relaxados.A luz me permitia ver por inteiro a pele daquelas costas, que embrulhavam as linhas da carne e dos ossos, da cintura que parecia mais fina do que eu me lembrava. O início dos quadris, que ao atraírem meu olhar, logo me faziam voltar a olhar pra cima. E ver de novo os cabelos com aquele penteado diferente, que me davam permissão pra captar inteiramente aquela cena. E esquecer de mim para olhar aquela silhueta.Contemplativa e encantada que estava, quase não percebi que minha mão direita se moveu meio involuntariamente em direção àquelas costas. E sabendo exatamente o que fazer naquele momento, apesar da ânsia de querer mais, foi seguindo muito lenta e cuidadosa para tocar suavemente e se permitir experimentar aquela cena com um outro sentido que não apenas a visão.E de repente, lá estava eu, de longe, olhando pra mim tocando as minhas costas e achando que dessa vez sim, eu estava me apaixonando por mim mesma, sem nenhuma projeção intermediária.


* Frase de Nelson Rodrigues adaptada.


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Top Ipod: I Me Mine: The Beatles

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

O abismo, incipiente, mas abismo...

Caminhar, lento, pausado, ir embora, aprender a voltar, aprender a voltar sem ficar, olhando pro lado, olhando pro outro lado, perceber, ouvir, escutar, observar, observar de novo, concluir, afirmar, voltar atrás, tentar de novo, agradecer, gritar, se calar....
Se calar...
Se calar...
Se calar...
Tropeçar, como sempre, e...
C A I R
C A I R
C A I R
Olhando dentro dos olhos do abismo que sempre esteve dentro da carcaça levada tão a sério. O abismo cheio de hematomas. Que não se curam tão facilmente quanto os externos. Durante a queda, gritam os fantasmas, gritam as teorias, gritam as opiniões sobre as teorias alheias, gritam as teorias próprias, grita a negação disso tudo.
Os sentimentos ficam espalhados ao redor, na forma de sua representação em palavras. As palavras representando sentimentos, assim como na vida real. Como se os sentimentos fossem apenas letras agrupadas. E esses grupos de letras se esticam e se distorcem como que negando a finalidade a que foram destinados.
Os gritos de dentro são tão altos que impedem que seja produzido algum som externo.
O abismo é a dúvida, da vontade que ainda não soube se fazer querer, pela exclusiva culpa de quem a possui. Culpa assumida. Abismo necessário. Intrínseco, individual e imutável na essência.
A queda livre retorna agora à tona, como meu sonho do passado, que vai começar a tomar forma. Criatividade muda aprendendo a balbuciar.

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Top Ipod: (Come on) Let's Go! - Smashing Pumpkins



domingo, 5 de agosto de 2007

Not enough

The time is not enough.
The inspiration is not enough.
The distance is not enough.
The missing is not enough.
The money is not enough.
The empty eyes are not enough.
The knowledge is not enough.
The loneliness is not enough.
The touch is not enough.
The words are not enough.
The patience is not enough.
The food is not enough.
The will is not enough.
The feelings are not enough.
Even the longing is not enough.

She feels so weary sometimes…


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Top Ipod: Fado das Dúvidas - Madredeus




quinta-feira, 26 de julho de 2007

Calculando, mensurando e racionalizando...

Daí a Wikipedia me disse:

“Fases ou estados da matéria são conjuntos de configurações que objetos macroscópicos podem apresentar. O estado físico tem a relação com a velocidade do movimento das partículas de uma determinada substância. Canonicamente e segundo o meio em que foram estudados, são três os estados ou fases considerados: sólido, líquido e gasoso. Outros tipos de fases da matéria, como o estado pastoso ou o plasma são estudados em níveis mais avançados de física. As características de estado físico são diferentes em cada substância e depende da temperatura e pressão na qual ela se encontra.”

Muito obrigada, ó grande oráculo para os ignorantes leigos que buscam definições como alguns famintos buscam fast food.
Hoje comecei a pensar que os sentimentos têm estados físicos também...

O encantamento pela simetria é gasoso, tão pusilânime quanto efêmero.
A dor é gasosa, porque cerca os sentidos como uma atmosfera espessa e sufocante que tende a se dissipar aos poucos.
A “felicidade” é gasosa, como a fragrância de saída de uma complexa formulação de odores...
A saudade é sólida, porque dói e pesa como bloco de concreto entre os pulmões e talvez se possa até calcular sua massa em quilogramas.
A ansiedade é sólida porque pesa nas mãos, nos ombros, na língua e no topo da cabeça.
A culpa é sólida, ora leve, ora muito muito densa...


A paixão é um líquido volátil que circula à paisana no plasma do sangue.

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Top Ipod: Mornings Eleven - The Magic Numbers

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Um filme no close pro fim

Ultimamente tenho soltado sem perceber algumas reflexões meio baratas do tipo que vêm no fim de filmes de comédias românticas ou em episódios clímax de alguns seriados. Brotam de mim frases do tipo: “Ninguém faz ninguém sofrer. Nós mesmos buscamos o sofrimento.” Tudo isso soa demasiado clichê, mas virando a situação, o ponto crucial é exatamente esse.
Eu que sempre fugi de tudo que fosse indício de convencional demais, óbvio demais, enfim, acessível demais, me surpreendo com conclusões dignas de um filme protagonizado pela Meg Ryan.
O tempo todo se constroem verdades e conceitos e aforismos e teorias e paradigmas individuais e coletivos que pretendem ser úteis e mostrar um novo caminho, ou uma forma de se trilhar algum dos caminhos pré-existentes. Muitos, inclusive algumas jacas comuns, tentam fazer isso a seu modo, talvez até em livros de auto-ajuda para os homo medianus.
A partir do momento em que imergimos no senso comum, ou seja, quando nascemos, não há como fugir completamente dele. Nós vivemos em sociedade e nos adaptamos a ela, de alguma forma, ainda que sejamos do tipo que contesta e discorda de quase tudo, ainda assim o nosso “eu” tem uma grande parcela do meio.
E ISSO É ÓBVIO. Mas às vezes o próprio óbvio, assim claro e simples é difícil de se concluir.
Ninguém é apenas si mesmo. O externo, o senso comum, rodeiam e invadem o nosso eu, inevitavelmente, mesmo que pensemos em algumas opiniões que julgamos ser exclusivamente nossas em sua essência. Por mais que a contribuição dos fatores externos seja pequena, ela sempre vai estar presente na nossa visão de mundo.
O vetor da busca que realizamos enquanto os olhos estão abertos aponta para algo que supostamente queremos ou deveríamos querer. E esse real objetivo também tem influências externas e ainda o adicional interno / externo da necessidade de alimentação do ego.
Dizer que tudo é simples não significa que tudo seja óbvio. Mas talvez o óbvio sirva como um dos instrumentos de tentativa de percepção desse todo. O caminho para a percepção tem vários instrumentos a serem utilizados. E começo a pensar que devo desprezar menos o clichê.
E assim, de reflexões cíclicas que tendem ao nada, se faz meu dia-a-dia. Algumas conclusões que realmente cabem no fim de algum “filme” que eu protagonizei, ou em alguma cena do meu enorme “filme” escrito pelo roteirista maluco.
Um filme sempre acaba, cheio de frases clichês, para dar espaço a um filme novo, de roteiro indefinido, mas com uma fórmula encantadora... Agora é deixar os créditos subirem...
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Top Ipod: The Deepest Blues are Black - Foo Fighters

domingo, 8 de julho de 2007

Super Taranta!



Finalmente! Álbum novo do Gogol Bordello! E eu, com minha ausência total de propriedade para ser crítica musical apenas digo que me divirto absurdamente com ele.

E graças à internet, a grande aliada de todos nós, ele pôde ser baixado antes de seu lançamento mundial (10 de julho). É claro que eu, apesar de ser grande aliada da mídia adquirida gratuitamente, com certeza comprarei o original assim que possível, regalia que só dou aos artistas muito especiais pra mim.

E o super fodão Eugene Hutz, além de performático, engraçado, criativo, original, se mostra mais fodão do que nunca. Incrementa àquela salada Gipsy Punk elementos ainda mais gipsy punks, em todos os sentidos que essas palavras podem ter, incluindo ainda tarantela italiana (!). E por mais BIZARRO que isso possa parecer, o resultado da salada maluca é delicioso! Os vocais descontrolados do Eugene, com todos aqueles instrumentos ciganos ao fundo (inclusive a sanfona, acordeon ou gaita, como queiram :P) marcam ainda mais como o jeito Gogol Bordello de ser nesse novo álbum. A faixa Wonderlust King é… wow! E ainda tem um novo arranjo pra Strange Uncles from Abroad.


E para quem não faz a mínima idéia do que eu estou falando, eu recomendo uma tentativa pelo mundo de Eugene e companhia... Tipo: Dá uma olhada na capa!!! Eugene me conquistou desde aquele sotaque carregado naquele inglês único que ele fala em Everything is Illuminated (em cuja trilha sonora o Gogol está presente).” He’s a premium dancer and all the girls want to go carnal with him”. Além disso, o som deles é muito a minha cara! Uma grande mistura, bem humorado, sarcástico, debochado, abusado e porque não, non sense também.

Quer mais? http://www.sideonedummy.com/bands_bio1205.php?band_name=Gogol_Bordello



Because a purple little little lady will be perfect for a dirty old and useless clown...




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Top Ipod: Wonderlust King - Gogol Bordello




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