segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Homesick




Às vezes a gente cresce demais e não cabe em casa, dentro das roupas ou dentro do corpo. Talvez porque tenha juntado objetos desnecessários demais. Ou comido demais. Ou pensado demais. Ou ficado tanto tempo parado que tudo atrofiou. Sem saber se é cãibra, dor ou desespero, você pensa que precisa fazer alguma coisa. Não adianta pensar nos motivos ou se arrepender do que aconteceu. Faz tempo demais. Você não se lembra de como era sua letra cursiva, dos nomes das ruas ou dos apelidos de quem chegou a ser seu melhor amigo no mundo inteiro. Você só sabe que está lá, enorme, desajeitado e quase não consegue mais se mexer. No meio de mais uma noite insone, várias vozes egoístas gritam que você faz sempre tudo errado. E já que não dá para criar nada de bom ali, você decide continuar crescendo, mas para isso precisa fugir. Dentro de uma caixa mofada, guarda tudo aquilo que sabe que não vai mais precisar e deixa para trás. Bilhetes agora incompreensíveis, roupas que você nunca usou e mídias obsoletas gravadas e regravadas. Você amputa alguns membros do seu corpo que gangrenaram há anos sem que você tenha dado falta. E então você sai o mais rápido que pode. Quer voar, mas ainda não aprendeu a correr. Enquanto foge, você se ilude várias vezes pensando que agora, sim, entendeu tudo. Mas a realidade e as pessoas que moram nela parecem absurdas demais e você decide deixá-las falando sozinhas. Tudo ainda parece desproporcional. No meio do caminho, você não pertence mais a lugar algum. Só queria estar muito longe, em vários lugares ao mesmo tempo. Mas perto de si. Dentro de casa. Uma casa limpa, sem objetos inúteis, sem pessoas ou lembranças inúteis. Com livros cheios de lições importantes para aprender e onde os únicos papéis que valem ser guardados são os que cabem histórias novas. Histórias que precisam ser contadas.



quinta-feira, 12 de junho de 2014

Agora vem a parte difícil

Poema de Walt Whitman ilustrado por Allen Crawford



Eu queria voltar no tempo e ter uma conversa séria com quem me deu a impressão de que o aprendizado é uma coisa agradável. Hoje eu vejo que aprender é sujo e feio.  Errar, começar de novo, voltar atrás, jogar tudo fora e tentar de novo. Dias e meses de sofrimento para uma ou duas horas de satisfação, seguidas de mais sofrimento duradouro e constante. Você vê, presta atenção, tenta reproduzir com seu corpo ou com suas palavras e o resultado é um lixo. Você se odeia. Repete umas 50 vezes e melhora um pouco a cada vez. Lá pela 65ª vez, você acha que está muito melhor. E é nesse momento que lhe contam que agora vem a parte difícil. Você aprende a sapatear, depois a sincronizar os braços com os pés e ainda tem que tentar fazer tudo isso temperado com charme e sorrisos. Você inventa uma história, depois personagens para vivê-la, cria diálogos e ainda tem que tentar amarrar tudo dentro do gênero que você escolheu, sem perder o tom. E, de novo, você descobre que precisa refazer, reescrever, ensaiar mais, enxugar o suor, rabiscar, editar, tomar um copo d'água, vencer a frustração. E quando vem aquele momento curto em que você consegue, todo o sofrimento parece sumir. Pensando bem, o aprendizado é uma coisa agradável sim. De um jeito sujo, feio e, de preferência, eterno.







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Top Ipod: Diablo Rojo - Rodrigo y Gabriela


quarta-feira, 2 de abril de 2014

Nunca vá embora, tristeza




Eu sempre achei melancolia a palavra mais bonita que existe. Bonita demais pra significar alguma coisa ruim. A tal tristeza persistente tem uma reputação muito ruim por aí. Talvez, por isso, todo mundo queira “ser feliz”.  Antes eu achava que o maior objetivo era estar (e não ser) feliz. O tempo todo, de domingo a domingo, em horários comerciais ou não. Buscar a alegria e esquecer os motivos da tristeza eram minha maior motivação. Talvez porque a dor fosse grande demais, eu só queria um sorriso que durasse o maior tempo possível, daqueles de cansar as bochechas. Mas, sabe, pensando bem, eu não quero sorrir o tempo todo.  E, mais importante, eu não sei sorrir o tempo todo, nem por fora nem por dentro. Essa vontade de chorar que chega sem motivo, esse desconforto besta de não pertencer a lugar nenhum, essa fome de qualquer coisa que eu não sei saciar – isso é vida. Sem tristeza não dá pra viver, pelo menos se a vida em questão for a minha. Desde quando tristeza sempre tem que ter causa? Eu abraço a dor, danço com a dor, durmo de conchinha com a dor. Esse vazio enorme que nunca será preenchido não consegue se calar por muito tempo. A melancolia é uma música que toca o tempo todo, algumas vezes muito alto, outras bem baixinho e, não, não dá pra desligar. Por isso, tristeza, venha compartilhar esse edredom comigo porque hoje a noite é nossa. 





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Top Ipod: The Boxer - Simon & Garfunkel


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terça-feira, 10 de setembro de 2013

30




Foto: Iva Santana


Nada mudou. As águas não se dividiram, os ombros não pesaram, nenhum clichê correu atrás de mim. Não que eu esperasse ou quisesse. A verdade é que eu continuo a mesma e me sinto bem por ser a mesma. O que tento todos os dias é apenas ir em direção a quem eu quero ser, me aceitar, me entender, me amplificar. É tão mais fácil querer ser outra coisa. Às vezes parece mesmo que a vida tem a intenção de nos transformar em algo mais óbvio, mais “normal”. Tantas vezes eu achei que seria melhor escolher esses atalhos e deixei a maldita ilusão do mundo real me confundir. E o mundo real, na verdade, não passa de ilusão da minha cabeça. Olhando bem de perto, ninguém espera nada de ninguém, e o que eu consigo ver são só obstáculos. E quero continuar me esforçando para não tropeçar em obrigações, ignorância, vaidade, deuses, dinheiro, culpa, rancor, orgulho, padrões, inércia, preconceito, egoísmo e tudo o que causa dores desnecessárias. Eu só quero continuar em busca de sorrisos solitários e de um amor incontrolável por tudo o que me aproxima de mim. 
A estrada me espera e eu mal posso esperar.




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sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Amoras poluídas

Vez ou outra eu me sinto fraca. O tamanho do sorriso que acompanha o bom dia da colega de trabalho é angustiante. É impossível suportar a pressa do motoqueiro que acelera no farol amarelo. Se você ao menos olhar em minha direção eu posso começar a chorar e desandar a falar sem sentido sobre meu medo de tudo dar errado. Não aguento as amoras caindo sem parar no chão imundo do canteiro central. Não sei lidar com o clima quente da manhã que se transforma no vento gelado do fim da tarde. Minha falta de paciência com o tempo me faz chegar atrasada onde eu sou obrigada a estar. Eu tenho que estar onde não quero estar. Mas devo esperar o tempo me levar calmamente até onde eu preciso estar. O tempo tem seu próprio tempo.

Parem de cair, amoras.




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Top Ipod: When You Wake Up Feeling Old - Wilco




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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Dor



Seria mais fácil se eu não estivesse aqui. Se a vida vivesse sozinha, essa bigorna de desenho animado não estaria estacionada sobre meus pulmões. Eu bem poderia realmente acreditar todas as vezes que me falam que isso é urgente ou aquilo é importante. Poderia também continuar criticando os otimistas e não entender que o melhor otimismo vem do desespero. Fabricar o maldito lado bom das coisas só é possível com imaginação e com essa esperança idiota que ri de piadas que ainda nem fiz. Risco o calendário como quem risca as paredes da prisão. Aquelas palavras de incentivo, que quase nunca vêm, estão flutuando no ar seco. Produzir qualquer coisa banal seria bem mais simples do que dar forma a isso que sai junto com as lágrimas. Meu silêncio guarda ideias que dançam como se ninguém estivesse olhando. Criar dói. Não criar mata.


I will.




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Top Ipod: To Rise Above - Gogol Bordello




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segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O que você faz?





Hoje estou cansada de propósitos e objetivos. Não quero saber para onde vou.  Ando muito rápido porque não quero chegar a lugar algum. Desisti de dar uma surra nas partes horríveis do meu passado porque descobri que elas não me transformaram em algo feio e tóxico. Em vez de continuar fantasiando meu pessimismo de otimismo, comecei a transformá-lo em vontade. Concluí que nunca estarei pronta para nada e tomei atitudes inseguras que, ainda que inseguras, são, sobretudo, atitudes. Quero fazer qualquer coisa, quero fazer o que eu faço e quero fazer isso do melhor jeito que eu conseguir. Vou tentar ser incrível e interessante, mas se no fim eu conseguir apenas ser eu mesma, voltarei para casa satisfeita. Continuarei pouco a pouco afastando da minha vida todos aqueles motivos que criam rugas de preocupação no meio da cara das pessoas. Quero respirar fundo para tomar fôlego e sair correndo e nunca suspirar forte como quem desistiu. Perdi a paciência com lirismo que não tem pressa. Não quero chegar porque não existe. A espera acabou. As dez mil horas já começaram.

“When the road bends you cannot walk straight.”











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