quinta-feira, 14 de abril de 2011

Não empresto livros. A casa é sua, venha ler aqui. *


Alguns dias atrás eu sonhei que estava em uma biblioteca enorme, tão grande que eu não conseguia ver as paredes. Eu caminhava entre as estantes e folheava os livros e, para minha surpresa, alguns estavam com a capa e as folhas em branco.
Ah, os livros...
Eu sempre achei que os livros eram meu patrimônio mais importante. E não digo isso pra parecer intelectual e impressionar as pessoas. Justifico isso dizendo que nada que eu tenho me faz sentir o mesmo. A sensação que traz aquela ânsia de já começar a virar uma página antes mesmo de começar a ler o primeiro parágrafo dela. Os livros sempre foram meus companheiros, meus melhores amigos, minha fuga para um lugar melhor.
Eu fui uma criança muito sozinha e me lembro que um dia, quando eu tinha uns 7 anos, pra me distrair da falta de amiguinhos pra brincar, minha mãe me deu O Pequeno Príncipe  pra ler. Eu nunca vou esquecer como aquela história preencheu minha vida e me fascinou tanto que eu li várias vezes seguidas. Tempos depois, eu me lembro que tive catapora e não podia ir à escola. Então, minha mãe me deu Pollyanna e O Menino do Dedo Verde e eu passava as manhãs com chocolate quente e chazinho na companhia daqueles livros. Talvez tenha sido a época mais feliz da minha vida.
Cresci um pouco e me tornei uma adolescente também muito sozinha. E depois de ler toda a Série Vagalume, eu comecei a ler qualquer coisa que me aparecesse pela frente. Li o tão criticado e rejeitado O Mundo de Sofia, que teve o mérito de me abrir as portas do mundo dos filósofos e grandes pensadores. Como eu morava em uma cidade que não tinha (e ainda não tem) boas livrarias e eu também não tinha muito dinheiro, eu dependia dos empréstimos de amigos e da humilde biblioteca do SESC, além de viver perambulando pelos sebos mal abastecidos e, eventualmente, tinha sorte de achar algo incrível.
Eu começava a ler e o mundo sumia. Todos os meus colegas detestáveis da escola, meus problemas com meus pais e meus parentes insanos, meu sério problema de autoestima, tudo ia embora. Ficavam apenas as histórias e as idéias de gente que eu queria que fizesse parte da minha vida. Eles me davam o que eu mais precisava e eu me sentia melhor.
Eu me afeiçoava aos livros, me apropriava dos marcadores de páginas na biblioteca, imaginava coisas, mergulhava profundamente nas histórias, sorria, chorava, me apaixonava pelos personagens. É bem capaz de alguém me perguntar algo sobre alguma época da minha adolescência e eu responder com alguma parte de O Grande Mentecapto ou alguma aventura do protagonista de À Mão Esquerda, porque, na verdade, aquela ERA a minha vida, e aqueles eram meus amigos, meus professores, minha inspiração.
            Na época eu tinha um caderninho, que depois se encheu e eu tive que ter outro caderninho, e mais outro e assim sucessivamente. Nesses caderninhos eu anotava palavras, idéias, falas de personagens, minhas opiniões sobre aquilo tudo, minhas fantasias, minhas angústias. Cheguei a copiar à mão capítulos inteiros de livros que eu não podia comprar, porque eu precisava guardar aquilo junto comigo e eu não podia esquecer. Foi a única época que eu realmente consegui ter alguma coisa parecida com um diário, porque me sentia registrando algo mais relevante que qualquer coisa que eu havia pensado, vivido ou mesmo estudado na escola. Aquilo fazia com que eu me sentisse viva ou, em outras palavras, interessada pela vida.
            Eu aprendi a gostar dos livros usados, de páginas amareladas. Me empolgava sinceramente com dedicatórias de estranhos a outros estranhos, buscava avidamente por trechos sublinhados, anotações, bilhetes, cartões ou qualquer coisa que me mostrasse o efeito ou propósito daquele livro, que então estava comigo, na vida de outra pessoa.
            Os livros, para mim, tem corpo e alma. Obviamente, o corpo são as páginas e capas. Além de bilhetes, cartões, marcadores, cílios e pedaços de biscoito caídos entre as páginas, saliva seca nas extremidades, traços, exclamações, marcas de batom, buraquinhos de traças. Já a alma é aquilo que começa na cabeça de alguém de alguma forma, se transforma em palavras e, às vezes pode mudar a vida de quem está lendo, sublinhando e perdendo cílios no “corpo” do livro.
            Eu chego a sofrer pensando em quais caminhos desconhecidos um determinado livro esteve antes de chegar às minhas mãos. Porque geralmente eu leio o que aparece na minha frente e ignoro meu ceticismo para acreditar que um livro veio a mim por forças do destino.
            Agora que sou adulta e tenho que forjar momentos livres para leitura em meio à rotina sufocante e entediante, eu ainda tenho o mesmo sentimento pelos livros. Na verdade, eu tento esquecer isso às vezes, por ter que trair essa paixão enorme para executar o resto das minhas tarefas diárias. Mas os livros ainda são os amigos que suprem necessidades tão minhas, tão necessárias, tão insubstituíveis, que ninguém nem nada poderá suprir. Eu ainda sofro e me alegro com as histórias e ainda tenho aquela horrível sensação, como se alguém tivesse morrido, quando fecho um bom livro que acabei de ler.
            Mas na verdade eu falei tudo isso pra contar deste livro, que comprei em um sebo gigante aqui em São Paulo há cerca de um mês:




            É um livro que achei na última prateleira, no cantinho mais escondido, no cômodo mais escuro do Sebo do Messias. É um livro fino, com 164 páginas, surpreendentemente intacto, impresso nos Estados Unidos. No verso do livro está o valor em dólares – U$$ 24,00 e CAN 30,00. E eu paguei míseros R$ 10,00. Em resumo, o livro é um workshop imaginário dado pela Virginia Woolf para quem gosta de escrever (ou produzir algo criativo em geral), no qual uma autora compilou trechos de artigos escritos pela própria e intercalou com diálogos inventados e dicas práticas.
            Comecei a ler finalmente este livro e, como eu já tinha uma noção, ele se encaixa tão assustadoramente bem neste momento da minha vida que eu não consigo parar de pensar nele e fico imaginando por quais meios improváveis ele chegou até a minha estante bagunçada. Eu, que nunca li um livro da Virginia Woolf, estou encantada, deslumbrada, perplexa com as idéias dessa mulher fascinante sobre algo que é igualmente fascinante para mim. São tantas possibilidades que se abrem, tantas idéias que surgem, que eu mal consigo lidar com o que eu tenho sentido ultimamente.
            De certa forma, eu sei que ele está aqui porque eu o quis e me senti motivada a encontrá-lo e então começou a leitura e começaram os pensamentos que voltaram a existir. Assim como eu finalmente ressuscitei aquele caderninho de anotações, que nada mais é que um sinal de que eu voltei a gostar da vida.
            Porque é simples assim: as coisas acontecem de dentro pra fora, da alma para o corpo, assim como os livros. E ainda existem tantos livros em branco naquela biblioteca...



*Frase que Mário de Andrade tinha ao lado de sua estante de livros, irritado porque as pessoas não devolviam o que pegavam emprestado. E, como ele, eu não empresto meus livros.


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Top Ipod: Anthem -  Leonard Cohen (because there is a crack in everything and that's how the light gets in)
                When I Paint My Masterpiece - Bob Dylan (por motivos óbvios)
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2 comentários:

Nina Maniçoba Ferraz disse...

Oi, Balbina! Foi bom conhecê-la. O nosso curso na USP está ótimo, não está? Boa sorte nos seus planos. bjs

[balbina conspira] disse...

Sim! O curso é sensacional!
Obrigada, querida!

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